Publicado em agosto 16, 2009 por Cristiane
Doenças relacionadas ao trabalho não são uma novidade. Desde a
antiguidade existem relatos esparsos sobre dor relacionada ao trabalho, mas só
no início do século XVIII foi publicado, por Bernardino Ramazzini (considerado
o Pai da Medicina do Trabalho), o primeiro trabalho sobre a relação entre
alguns tipos de ofícios e danos à saúde, como no caso de escribas e notários.
Com a evolução das tecnologias e as decorrentes mudanças na organização
do trabalho, observou-se um aumento vertiginoso no número de casos de LER (lesões por
esforços repetitivos)/DORT (distúrbios osteomusculares relacionados ao
trabalho) em trabalhadores, tornando clara a associação entre esses
distúrbios e fatores relacionados ao trabalho. Apesar da evolução do
conhecimento a respeito de tais distúrbios, as características atuais do mundo
do trabalho (como estabelecimento de metas e produtividade elevada, aumento da
jornada, monotonia, permanência por longos períodos na mesma postura,
mobiliário e equipamentos desconfortáveis, movimentação repetitiva, alta
competitividade e monitoramento constante) são incompatíveis com a saúde dos
trabalhadores e seus limites físicos e emocionais.
Atualmente, os casos de LER/DORT são comuns em várias categorias de
profissionais: digitadores, bancários, telefonistas, operadores de
telemarketing, operadores de caixa, programadores, operários de linhas de
montagem, auxiliares de enfermagem, dentistas, costureiras, cabelereiros e
diversos outros.
Definição
Existem algumas controvérsias entre profissionais e estudiosos a
respeito da linguagem e da diferenciação entre LER e DORT. Para
começar, as LER/DORT não representam uma doença, e sim umconjunto heterogêneo
de afecções do sistema músculoesquelético relacionadas ao trabalho.
Alguns autores diferenciam LER e DORT, ao passo que muitos outros usam
esses termos de forma intercambiável. Para os primeiros, as LER podem não estar
diretamente relacionadas ao contexto ocupacional, como no caso de uma criança que
passa muito tempo jogando no computador ou em videogames, com movimentos
repetitivos e postura inadequada (o que pode causar lesões de estruturas
nervosas e musculoesqueléticas).
Em 1998 o INSS, através da Ordem de Serviço 606/98, introduziu o termo
DORT, equiparando-o ao termo LER. A Instrução Normativa INSS/DC 98 de 2003, que revisa a OS
606/98, utiliza a terminologia LER/DORT, mas explica em sua introdução que
“A terminologia
DORT tem sido preferida por alguns autores em relação a outros tais como:
Lesões por Traumas Cumulativos (LTC), Lesões por Esforços Repetitivos (LER),
Doença Cervicobraquial Ocupacional (DCO), e Síndrome de Sobrecarga Ocupacional
(SSO), por evitar que na própria denominação já se apontem causas definidas
(como por exemplo: “cumulativo” nas LTC e “repetitivo” nas LER) e os efeitos
(como por exemplo: “lesões” nas LTC e LER)”
De acordo com a mesma portaria, pode-se entender LER/DORT como:
“uma síndrome
relacionada ao trabalho, caracterizada pela ocorrência de vários sintomas
concomitantes ou não, tais como: dor, parestesia, sensação de peso, fadiga, de
aparecimento insidioso, geralmente nos membros superiores, mas podendo acometer
membros inferiores. Entidades neuro-ortopédicas definidas como tenossinovites,
sinovites, compressões de nervos periféricos, síndromes miofaciais, que podem
ser identificadas ou não. Freqüentemente são causa de incapacidade laboral
temporária ou permanente. São resultado da combinação da sobrecarga das
estruturas anatômicas do sistema osteomuscular com a falta de tempo para sua
recuperação. A sobrecarga pode ocorrer seja pela utilização excessiva de determinados
grupos musculares em movimentos repetitivos com ou sem exigência de esforço
localizado, seja pela permanência de segmentos do corpo em determinadas
posições por tempo prolongado, particularmente quando essas posições exigem
esforço ou resistência das estruturas músculo-esqueléticas contra a gravidade.
A necessidade de concentração e atenção do trabalhador para realizar suas
atividades e a tensão imposta pela organização do trabalho, são fatores que
interferem de forma significativa para a ocorrência das LER/DORT.”
Ressalte-se que alguns autores também utilizam a terminologia AMERT
(afecções músculo-esqueléticas relacionadas ao trabalho) para se referir a
esses distúrbios.
Fisiopatologia e etiologia / fatores de risco
Como as LER/DORT correspondem a uma gama de afecções com sinais clínicos
variáveis e são fruto da interação de vários fatores (ambiente físico, contexto
socioeconômico e cultural, organização do trabalho e fatores orgânicos e
psicológicos), a sua etiologia é complexa, bem como a clareza de sua
associação e causalidade com o trabalho.
Porém, os quadros de LER/DORT têm em comum o fato de não
resultarem de lesões súbitas (como acidentes de trabalho) e
estarem associados a traumatismos de fraca intensidade e repetidos ou
mantidos por longos períodos sobre as estruturas musculoesqueléticas
ativadas, que podem contrair-se repetidamente, sem tempo para
recuperação, enquanto outras trabalham constantemente para manter
determinada posição através de contrações isométricas.
Durante as contrações musculares ocorre aumento da pressão
intramuscular, o que leva à compressão dos vasos sanguíneos intramusculares.
Com isso, a nutrição dos músculos ativos pode ser diminuída. Quando há
contração muscular e logo depois descanso, a irrigação sanguínea volta ao
normal, sem prejuízos para a nutrição dos músculos. Quando as contrações são
repetidas ou mantidas por longos períodos, sem descanso apropriado, ocorrem
modificações bioquímicas nos músculos: a diminuição na irrigação leva ao
déficit de oxigênio (isquemia) e de nutrientes na região. Assim, o músculo
funciona em condições anaeróbicas e ocorre fadiga, além do aumento na
concentração de metabólitos tóxicos, que não são adequadamente removidos, como
lactato. A contração repetida também leva a atrito dos tendões e
microdilacerações na inserção músculo-tendão. A ocorrência constante
desses mecanismos leva a uma resposta inflamatória ou degenerativa dos
tecidos musculoesqueléticos, ocasionando dor, fadiga muscular e edema. Além disso, acompressão dos nervos
da região ocasionada pela contração repetida diminui a condução nervosa e causa
parestesias (formigamento e/ou diminuição da sensibilidade).
Para saber mais sobre esses mecanismos, veja o resumo da
apresentação “LER:
Fisiopatologia”, de Ada Ávila Assunção e o artigo “Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho: um enfoque
ergonômico”, de Wilson Luiz Przysiezny.
Saliente-se que, em vista da complexidade causal dos
quadros de LER/DORT, os fatores biológicos não podem ser considerados como uma
causa exclusiva. Como já dito, esses distúrbios são consequência da integração
entre diversos fatores, cuja influência, em muitos casos, é praticamente
impossível de ser isolada e quantificada. Para mais informações sobre
algumas abordagens “parciais ” do tema (perspectivas psicologizante,
socializante e biologizante), sugiro que consultem o artigo “LER/DORT: multifatorialidade etiológica e modelos explicativos”, de
Chiavegato Filho e Pereira Jr.
Quanto aos fatores de risco, devemos considerar
os seguintes elementos para caracterizá-los (conforme a Instrução Normativa nº
98/03, citada acima):
a) a região
anatômica exposta aos fatores de risco;
b) a intensidade
dos fatores de risco envolvidos;
c) a organização
temporal da atividade (duração do ciclo de trabalho, distribuição de
pausas ou estrutura de horários);
d) o tempo
de exposição aos fatores de risco.
Já os grupos
de fatores de risco podem ser relacionados com:
a) grau de
adequação do posto de trabalho à zona de atenção e à visão;
b) frio,
vibrações e pressões locais (mecânicas) sobre os tecidos moles e
trajetos nervosos;
c) posturas
inadequadas: três mecanismos relacionados à postura podem causar
LER/DORT:
c.1) limites da
amplitude articular;
c.2) força da
gravidade, que ofere uma carga suplementar sobre articulações e músculos;
c.3) lesões
mecânicas sobre diferentes tecidos;
d) carga
osteomuscular, que pode ser entendida como a carga mecânica decorrente:
d.1) de uma tensão
(por ex., a tensão do bíceps);
d.2) de uma pressão
(por ex., a pressão sobre o canal do carpo);
d.3) de uma fricção
(por ex., a fricção de um tendão sobre a sua bainha);
d.4) de uma
irritação (por ex., a irritação de um nervo).
Entre os fatores
que influenciam a carga osteomuscular, encontramos: a força, a repetitividade,
a duração da carga, o tipo de preensão, a postura do punho e o método de
trabalho;
e) a carga
estática. Ela está presente quando um membro é mantido numa posição que vai
contra a gravidade. Nesses casos, a atividade muscular não pode se reverter a
zero (esforço estático). Três aspectos servem para caracterizar a presença de
posturas estáticas: a fixação postural observada, as tensões ligadas ao
trabalho, sua organização e conteúdo;
f) a invariabilidade
da tarefa, que implica monotonia fisiológica e/ou psicológica;
g) as exigências
cognitivas, que podem ter um papel no surgimento das LER/DORT, seja
causando um aumento de tensão muscular, seja causando uma reação mais
generalizada de estresse;
h) os fatores
organizacionais e psicossociais ligados ao trabalho, como as
percepções subjetivas que o trabalhador tem dos fatores de organização das
exigências do trabalho (considerações relativas à carreira, à carga e ritmo de
trabalho e ao ambiente social e técnico do trabalho).
Para saber mais sobre alguns fatores de risco apresentados na
literatura, consulte o Protocolo de atenção integral à Saúde do Trabalhador de Complexidade
Diferenciada sobre LER/DORT, do Ministério da Saúde.
Sinais e sintomas
Em geral, os sintomas têm início insidioso (gradativo), são
intermitentes (aparecem no final da jornada de trabalho ou em picos de produção
e desaparecem com o descanso), de curta duração e leve intensidade. Os trabalhadores,
por desconhecimento ou medo de perderem o emprego, costumam ignorá-los ou
mascará-los com certos medicamentos, até que seu aumento e gravidade levem a
dificuldades na realização do trabalho e das tarefas diárias, além de
alterações no comportamento e no humor (depressão, ansiedade ou irritação, por
exemplo). Entre as queixas mais comuns, podemos citar:
- Dor (localizada, irradiada ou
generalizada) ou desconforto;
- Fadiga;
- Sensação de peso nos membros;
- Formigamento, dormência e/ou
sensação de choque nos membros;
- Sensação de diminuição de força;
- Falta de firmeza nas mãos;
- Edema;
- Enrijecimento muscular.
Se tais sintomas não forem percebidos a tempo, o indivíduo pode
continuar se submetendo às mesmas condições de trabalho e agravar
progressivamente seu quadro. Nas fases mais avançadas, os sintomas aparecem sem
fator desencadeante aparente (ou em resposta a estímulos mínimos) e de forma
mais intensa e contínua, com enormes prejuízos para a realização de atividades
e da qualidade de vida, tanto do indivíduo acometido como de seu círculo
familiar, social e de trabalho.
Aspectos legais
Doenças relacionadas ao trabalho têm implicações legais para os
indivíduos acometidos e seus empregadores, o que pode interferir (positiva ou
negativamente) no processo de diagnóstico e intervenção. Existe uma ampla
legislação para regulamentar as condições de trabalho que interferem na saúde e
assegurar os direitos do trabalhador. Essa legislação precisa acompanhar
continuamente a evolução do conhecimento na área, mas o mais importante é que o
seu cumprimento seja observado para que as condições para manutenção e promoção
da saúde no trabalho sejam satisfeitas.
Bem, é isso. Como se
trata de um assunto amplo, resolvi abordar primeiramente os aspectos
relacionados à conceituação e caracterização das LER/DORT. Em um próximo post,
falarei sobre aspectos relacionados à prevenção e ao tratamento, especialmente
de Terapia Ocupacional.
Para saber mais (além das referências citadas ao longo do post):
Informações gerais
sobre LER/DORT:
Legislação:
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